Mauro Condé*
“Liberte sua mente da influência alheia” … Goethe.
Naquele dia … um jovem entrou no consultório carregando um cansaço que nenhum exame poderia revelar.
– Todos me julgam. Nunca sou suficiente.
O terapeuta não respondeu. Algumas feridas precisam encontrar primeiro um silêncio que não as violente.
Depois perguntou … com delicadeza:
– Quanto desse sofrimento realmente pertence aos outros?
O rapaz pensou longamente.
– Quase tudo. Noventa por cento.
O terapeuta sorriu como quem avista uma nascente escondida.
– Então sua vida acaba de encontrar os dez por cento capazes de transformar os outros noventa.
Levantou-se e apontou para um velho jardineiro que continuava trabalhando enquanto o vento sacudia as árvores.
– Repare. Ele nunca negocia com a tempestade. Nenhuma árvore floresce convencendo o céu a ser mais gentil. Ela apenas desce mais fundo. E quanto mais profundas se tornam suas raízes … menos o vento decide seu destino. Um dia … aquilo que parecia ameaça torna-se música nas folhas.
Naquele instante … o jovem percebeu a armadilha invisível: ao entregar aos outros toda a responsabilidade por sua dor … entregava-lhes também a autoria da própria existência.
Saiu sem que o mundo mudasse um milímetro.
As críticas permaneceram.
As injustiças continuaram.
As pessoas eram as mesmas.
Mas já não possuíam a chave da única casa onde a liberdade pode morar.
A inspiração para a história acima encontrei numa viagem rumo ao conhecimento … usando como meio de transporte fantásticos livros que unam Terapia com Filosofia.
Eles me levaram para Palo Alto … na Califórnia … Estados Unidos onde fui recebido pelo renomado psiquiatra Dr. Irvin Yalom … a quem fui logo pedindo:
Ensina-me algo que eu ainda não saiba e possa mudar minha vida para melhor.
-Há dores cuja origem pertencem inteiramente ao outro. Ainda assim, a reconstrução da vida começa quando recuperamos aquilo que ninguém pode viver por nós.
Talvez seja esse o nome secreto da maturidade.
Aceitar que nunca escolheremos todos os ventos.
Mas sempre escolheremos a profundidade das raízes.
Porque quem finalmente aprende a habitar a própria consciência descobre a única liberdade que ninguém pode confiscar: deixar de viver do lado de fora de si.
*Consultor … Palestrante e Fundador do Blog do Maluco.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia









