Apesar de aproximadamente 75% dos brasileiros dependerem exclusivamente do SUS, taxa de cirurgias realizadas na rede privada foi cinco vezes maior Crédito: Shutterstock
Quatro em cada dez adultos brasileiros convivem com varizes ou algum grau de doença venosa crônica, um problema que vai muito além da estética. Embora muita gente associe as veias dilatadas apenas à aparência das pernas, a condição pode evoluir de forma silenciosa e provocar dor, inchaço, alterações na pele, sangramentos, úlceras de difícil cicatrização e até aumentar o risco de trombose.
Um estudo recém-publicado na revista científica Annals of Vascular Surgery, conduzido por pesquisadores do Hospital Israelita Einstein, reforça a dimensão do problema. A pesquisa analisou mais de 1,2 milhão de cirurgias de varizes realizadas no Brasil entre 2015 e 2023, com base em dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e do DATASUS. Segundo os pesquisadores, entre 30% e 40% da população adulta brasileira apresenta algum grau de insuficiência venosa crônica.

Varizes vão muito além da estética e podem trazer riscos à saúde por Reprodução
O levantamento também revelou uma forte desigualdade no acesso ao tratamento. Apesar de aproximadamente 75% dos brasileiros dependerem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de cirurgias realizadas na saúde suplementar foi quase cinco vezes maior.
As diferenças também aparecem entre as regiões do país. O Sudeste concentrou 62% dos procedimentos, seguido pelo Sul, com 17,5%. Já a Região Norte respondeu por apenas 1,5% das cirurgias.
Segundo o cirurgião vascular Bruno Jeronimo Ponte, um dos autores do estudo, o objetivo da pesquisa foi retratar a realidade brasileira e fornecer informações que possam orientar futuras políticas públicas.
“A pesquisa levanta novas perguntas, como os motivos pelos quais algumas regiões realizam mais cirurgias do que outras e como ampliar o acesso ao tratamento”, afirma o especialista.
Doença pode piorar com o tempo
As varizes fazem parte da doença venosa crônica, que engloba desde pequenos vasos aparentes até alterações em veias de maior calibre.
De acordo com o cirurgião vascular Nelson Wolosker, reitor de Ensino do Einstein e líder da pesquisa, o problema surge quando as válvulas das veias deixam de funcionar corretamente. Com isso, o sangue deixa de retornar de forma eficiente ao coração, acumula-se nas pernas e provoca a dilatação das veias.
A evolução costuma ser lenta. No início, podem surgir apenas pequenos vasos ou alterações discretas na pele. Com o passar dos anos, aparecem sintomas como sensação de peso, dor, cansaço e inchaço, principalmente no fim do dia.
Nos casos mais graves, a doença pode provocar inflamação dos tecidos, escurecimento da pele e úlceras venosas que permanecem abertas por meses ou até anos. Também há maior risco de trombose venosa profunda e de sangramentos causados pelo rompimento de varizes calibrosas.
“A doença venosa crônica não costuma ser fatal, mas pode comprometer significativamente a qualidade de vida, afastando pacientes do trabalho e causando dor crônica por longos períodos”, destaca Wolosker.
Mulheres são maioria, mas homens também devem ficar atentos
O estudo identificou que 78% das cirurgias de varizes foram realizadas em mulheres. Ainda assim, os especialistas ressaltam que os homens também desenvolvem a doença.
Entre os principais fatores de risco estão a predisposição genética, o envelhecimento, a obesidade, a gestação e profissões que exigem permanecer muitas horas em pé ou sentado.
Não espere as complicações aparecerem
Os pesquisadores alertam que um dos principais obstáculos ao tratamento é a ideia de que varizes representam apenas um problema estético.
Segundo Bruno Jeronimo Ponte, muitas pessoas só procuram atendimento quando surgem complicações. No entanto, mesmo quem apresenta apenas pequenos vasinhos pode ter uma insuficiência venosa mais profunda que ainda não é visível.
O diagnóstico costuma ser feito por avaliação clínica. Exames como o ultrassom são utilizados principalmente para mapear as veias comprometidas e definir o tratamento quando há indicação de procedimentos.
Hoje, existem diferentes opções terapêuticas, como cirurgia convencional, laser, radiofrequência e escleroterapia com espuma. A escolha depende das características de cada paciente.
“O objetivo do tratamento não é apenas melhorar a aparência das pernas, mas interromper a progressão da doença e prevenir complicações”, reforça Nelson Wolosker.
Fonte: Jornal Correio









