Quer envelhecer com mais saúde? Médico explica o que pode ser feito décadas antes dos sintomas Crédito: Imagem: pics five | Shutterstock
Viver mais não significa necessariamente chegar à velhice com a mesma independência física e cognitiva. Com a expectativa de vida dos brasileiros chegando a 76,6 anos em 2024 e a população com 60 anos ou mais alcançando 34,1 milhões de pessoas, a medicina preventiva amplia uma discussão que começa muito antes da terceira idade: o que pode ser feito hoje para preservar a saúde nas próximas décadas?
Para o médico Lucas Rezende, que atua nas áreas de nutrologia e medicina preventiva, o objetivo do acompanhamento não é esperar o surgimento de uma doença para então agir. A proposta é identificar fatores de risco e mudanças que podem ser trabalhados enquanto a pessoa ainda se sente bem. “A medicina preventiva começa antes dos sintomas. O objetivo não é procurar uma doença em quem se sente bem, mas conhecer o histórico, avaliar os fatores individuais e atuar sobre aquilo que pode ser modificado ao longo da vida”, explica.
Bruce Willis reacende debate sobre envelhecimento
A discussão ganhou repercussão recentemente após uma rara aparição pública de Bruce Willis, aos 71 anos, no casamento da filha Tallulah Willis com Justin Acee, em Idaho, nos Estados Unidos. Diagnosticado com demência frontotemporal em 2023 e afastado da atuação, o ator apareceu ao lado da família durante a cerimônia. As imagens provocaram comoção nas redes sociais, com fãs celebrando a presença dele em um momento importante da vida da filha.
O episódio também voltou a chamar atenção para uma questão relacionada ao envelhecimento: aumentar a expectativa de vida não significa necessariamente preservar a autonomia durante todo esse período. Segundo Rezende, hábitos e condições de saúde acumulados ao longo dos anos podem influenciar a forma como uma pessoa envelhece. “Quando se fala em longevidade, não basta contar anos. Alimentação, atividade física, sono, composição corporal, pressão arterial e saúde metabólica acumulam efeitos durante décadas”.
Sentir-se bem não significa estar sem fatores de risco
A ausência de sintomas pode dar a impressão de que está tudo bem, mas algumas alterações importantes podem permanecer silenciosas durante anos. Pressão arterial elevada, alterações de glicemia e colesterol, aumento da gordura visceral e perda de massa muscular, por exemplo, podem ocorrer sem provocar mudanças perceptíveis na rotina. Por isso, uma avaliação preventiva pode considerar histórico familiar, idade, pressão arterial, glicemia, colesterol, composição corporal, alimentação, atividade física, sono, consumo de álcool e tabagismo.
A combinação desses fatores ajuda o médico a identificar quais pontos precisam de acompanhamento e quais mudanças podem ser adotadas antes que uma alteração evolua para um problema clínico. O Ministério da Saúde relaciona doenças crônicas não transmissíveis a fatores modificáveis como tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentação inadequada, obesidade e inatividade física. Entre essas doenças estão diabetes, câncer, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas.
Pesquisa do IBGE vai avaliar saúde dos brasileiros A preocupação com prevenção ocorre em um momento em que o Brasil atualiza seus dados sobre as condições de saúde da população. Em julho de 2026, o IBGE iniciou, em parceria com o Ministério da Saúde, a terceira edição da Pesquisa Nacional de Saúde.
Cerca de 140 mil domicílios devem ser visitados até novembro para reunir informações sobre hábitos, doenças crônicas, acesso aos serviços de saúde e fatores associados à qualidade de vida. Parte dos participantes também terá pressão arterial, peso e altura avaliados. Entre 15 mil e 20 mil moradores com 35 anos ou mais participarão da coleta de biomarcadores por meio de exames de sangue e urina.
Mais exames não significam necessariamente mais prevenção
A medicina preventiva também ganhou espaço no debate após Rumer Willis, filha de Bruce Willis e Demi Moore, revelar ter realizado um teste genético APOE para conhecer sua predisposição ao Alzheimer. Em entrevista à revista People, ela contou que teve receio de descobrir o resultado por causa do histórico familiar, mas considerou a informação uma ferramenta para tomar decisões sobre a própria saúde.
O exame, porém, não diagnostica Alzheimer nem determina que uma pessoa desenvolverá a doença. Também não deve ser confundido com o diagnóstico de demência frontotemporal recebido por Bruce Willis. Para Rezende, o caso ilustra uma questão importante: até que ponto vale investigar uma pessoa que não apresenta sintomas?
O médico alerta que prevenção não deve ser confundida com a realização indiscriminada de testes genéticos, exames de imagem ou grandes baterias de exames laboratoriais. “Medicina preventiva não é medir tudo o que a medicina consegue medir. É compreender idade, histórico familiar, hábitos e fatores de risco para decidir o que realmente precisa ser investigado. Fazer mais exames não significa necessariamente cuidar melhor da saúde”.
O que pode ser feito antes da velhice?
A estratégia envolve acompanhar ao longo do tempo fatores que podem influenciar o envelhecimento, em vez de concentrar toda a atenção apenas quando uma doença aparece.
Entre os pontos que podem fazer parte dessa avaliação estão:
- Alimentação;
- Atividade física;
- Qualidade do sono;
- Pressão arterial;
- Glicemia e colesterol;
- Composição corporal;
- Massa muscular;
- Histórico familiar;
- Consumo de álcool;
- Tabagismo.
Na avaliação de Rezende, o acompanhamento deve ser individualizado e combinar consulta médica, exames quando houver indicação e mudanças de estilo de vida. A ideia é observar a trajetória do paciente e atuar sobre fatores que podem ser modificados, em vez de esperar o surgimento de uma doença para começar o cuidado.
O objetivo não é impedir o envelhecimento
A medicina preventiva não promete impedir o envelhecimento nem eliminar completamente o risco de doenças. A proposta é diferente: identificar o que pode ser modificado e agir antecipadamente. “A medicina preventiva não promete impedir o envelhecimento ou eliminar todas as doenças. Ela permite agir sobre aquilo que pode ser modificado e aumentar a possibilidade de chegar aos próximos anos com independência, capacidade física e qualidade de vida”, conclui Rezende.
Fonte: Jornal Correio









