Novo medicamento para epilepsia chega às farmácias e pode deixar pacientes resistentes aos tratamentos livres de crises Crédito: Imagem gerada pela IA
Um novo medicamento já está disponível nas farmácias brasileiras e amplia as possibilidades de tratamento para adultos com epilepsia farmacorresistente. O cenobamato é indicado para pacientes com crises focais e chama atenção pelos resultados observados em estudos clínicos, nos quais parte dos pacientes que não haviam respondido a tratamentos anteriores ficou completamente livre de crises.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o cenobamato em março deste ano para uso associado a outros medicamentos em adultos com crises focais que continuam ocorrendo mesmo após a tentativa de pelo menos dois fármacos anticrise. A chegada às farmácias, porém, aconteceu apenas agora. Após o registro pela Anvisa, ainda era necessário que a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) definisse o preço do produto, o que ocorreu em julho. A comercialização começou em agosto.
Segundo a Anvisa, cerca de 30% das pessoas com epilepsia continuam apresentando crises apesar dos tratamentos disponíveis. Para a neurologista Ana Paula Gonçalves, presidente da Liga Brasileira de Epilepsia (LBE), esse grupo pode ser especialmente beneficiado pela nova opção terapêutica.
“Com os medicamentos atuais, 70% dos pacientes têm suas crises controladas, mas 30% apresentam epilepsia que não responde aos medicamentos convencionais. O cenobamato traz a perspectiva de que um em cada cinco pacientes que não responderam a medicamentos prévios possa ficar livre de crises. É uma nova esperança para quem sofre de epilepsia farmacorresistente”, afirma.
Como o cenobamato age
Um dos diferenciais do medicamento é seu duplo mecanismo de ação. Segundo Ana Paula, o cenobamato atua tanto nos canais de sódio quanto nos receptores GABA-A, relacionados à atividade inibitória do sistema nervoso central. Dessa forma, o medicamento interfere na atividade cerebral por mecanismos diferentes e complementares, contribuindo para a prevenção das crises epilépticas.
Os resultados ganham relevância principalmente por terem sido observados em pacientes que já haviam tentado outros tratamentos sem conseguir controlar a doença. De acordo com a neurologista, nos estudos clínicos, entre 21% e 28,3% dos pacientes que receberam determinadas doses de cenobamato ficaram livres de crises durante o período de manutenção.
“Esse resultado é muito relevante justamente porque estamos falando de pacientes que não conseguiram controlar as crises com medicamentos prévios. Além disso, o cenobamato permite que, em alguns casos, outros fármacos sejam reduzidos e até mesmo suspensos, e que o paciente tenha suas crises controladas com o uso de um único medicamento, administrado uma vez ao dia”, explica.
Para quem o medicamento é indicado?
O cenobamato é indicado principalmente para adultos com epilepsias focais. Segundo a presidente da LBE, é nesse grupo que está concentrada uma parcela importante dos casos de epilepsia farmacorresistente. A epilepsia é considerada farmacorresistente quando o paciente já tentou dois medicamentos, em doses adequadas e indicadas para o tipo específico de crise, com uso contínuo e correto, mas ainda assim não conseguiu controlar os episódios.
A especialista ressalta, entretanto, que controlar as crises não significa curar a epilepsia. “A epilepsia é uma das doenças neurológicas crônicas mais comuns. Costumo fazer a analogia de que as crises epilépticas são como curtos-circuitos da nossa atividade elétrica cerebral, que é o que coordena todas as funções do nosso organismo. Uma pessoa que sofre de epilepsia tem uma propensão a essa instabilidade cerebral. Os medicamentos anticrise estabilizam a atividade elétrica cerebral durante o uso e previnem que as crises aconteçam”, explica Ana Paula.
Pesquisas buscam entender por que as crises acontecem
A busca por novos tratamentos está relacionada também às pesquisas que tentam compreender os mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento da epilepsia e pela instabilidade da atividade elétrica cerebral. Segundo a neurologista, estudos realizados em diferentes partes do mundo procuram identificar por que algumas pessoas desenvolvem essa instabilidade e encontrar alternativas que permitam controlar melhor a doença.
“São muitas as pesquisas realizadas para tentar compreender melhor por que alguns indivíduos apresentam essa instabilidade cerebral e buscar alternativas que permitam que as pessoas vivam com qualidade de vida, sem serem acometidas repetidamente por crises”, conclui.
Fonte: Jornal Correio









