Cooperativismo médico: crescer junto é uma estratégia de futuro

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Por Daniel Martiniano Haber
Médico e presidente da Unimed Federação Nordeste Paulista

O Dia Mundial do Cooperativismo, celebrado em 4 de julho, não deve ser visto apenas como uma data setorial. Em um país marcado por desigualdades persistentes, ele propõe uma reflexão mais ampla: que modelos econômicos queremos fortalecer para gerar desenvolvimento, distribuir valor e manter vínculos com as comunidades?

Essa pergunta atravessa diferentes áreas, mas ganha contornos ainda mais sensíveis quando chega à saúde. Na medicina, falar de cooperativismo é discutir um caminho para equilibrar eficiência, valorização do trabalho médico e compromisso social.

O cooperativismo nasceu da necessidade de pessoas se reunirem para compartilhar serviços, responsabilidades e buscar o bem comum. No Brasil, ganhou estrutura jurídica com a Lei nº 5.764, de 1971. No mesmo ano, surgiu em Santos uma das primeiras experiências de cooperativismo médico no país, criada para valorizar o trabalho dos profissionais da medicina.

A diferença essencial está na lógica do modelo: enquanto empresas tradicionais remuneram o capital, o cooperativismo valoriza a pessoa, o trabalho e a participação. Um de seus princípios centrais é a gestão democrática: cada cooperado tem direito a um voto, independentemente do capital que possui ou do tempo de vínculo.

Na medicina, isso permite ao profissional ter voz, participar das decisões e ver seu trabalho reconhecido. Esse modelo exige mais diálogo. Decisões relevantes precisam ser debatidas e aprovadas coletivamente. Pode ser mais lento, mas traz transparência, engajamento e correção de rota. Às vezes, o cooperativismo demora mais a chegar aonde quer. Mas chega com mais gente junto.

Por isso, é equivocado enxergá-lo apenas como uma ideia antiga. Ele se mostra atual em um mundo que nunca produziu tanta riqueza e, ao mesmo tempo, distribuiu tão mal seus resultados. O debate sobre empresas comprometidas com colaboradores, clientes e comunidades já está presente no DNA cooperativista há décadas.

No cooperativismo, crescer não significa avançar apesar da perda do outro. Significa crescer junto. Em uma empresa com poucos sócios, o resultado tende a se concentrar. Em uma cooperativa médica, ele é distribuído entre centenas ou milhares de profissionais, que movimentam economias locais e fortalecem comunidades.

Na saúde, essa lógica ganha relevância adicional. O sistema brasileiro é complexo e desigual. Embora a Constituição estabeleça a saúde como direito de todos e dever do Estado, a realidade ainda separa quem consegue pagar por tratamentos de quem depende de uma rede pública sobrecarregada. Por isso, modelos que combinam eficiência, responsabilidade econômica e compromisso social merecem atenção.

A atuação em rede é outra força do cooperativismo médico. Cooperativas de diferentes portes podem compartilhar estruturas, serviços técnicos e soluções de gestão, permitindo que unidades menores continuem relevantes e acessem recursos mais difíceis individualmente.

Esse princípio será ainda mais necessário diante dos próximos desafios da saúde. O envelhecimento populacional exigirá eficiência assistencial sem perda de qualidade. A incorporação de tecnologias precisará ser feita com critério e sustentabilidade. Organizadas em rede, cooperativas podem compartilhar estruturas de alto custo e ampliar o acesso dos pacientes.

Essa é a força prática do cooperativismo: transformar cooperação em solução concreta. Ele não elimina os desafios do setor, nem substitui a responsabilidade pública na organização da saúde. Mas oferece um caminho para distribuir valor, integrar profissionais e reduzir assimetrias.

O cooperativismo médico não é uma lembrança do passado. É alternativa para o presente e estratégia para o futuro. Em tempos de concentração econômica e pressão tecnológica, ele reafirma uma ideia simples: na saúde, crescer junto talvez seja a forma mais inteligente de avançar.

Fonte: Pulsar Notícias

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