Por Paula Guimarães*
A evolução da medicina segue surpreendendo com o primeiro transplante de córnea biofabricado em 3D, realizado em Israel. A intervenção representa um marco para a medicina regenerativa e abre caminho para que mais pessoas restaurem a visão com maior agilidade, especialmente diante do aumento da fila de espera no Brasil. O número de pessoas aguardando uma córnea dobrou em dez anos, com um tempo médio de espera ultrapassando os 370 dias, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT).
O procedimento foi desenvolvido pela empresa PreciseBio, sendo a prótese fabricada com células corneanas humanas. A tecnologia de bioimpressão 3D foi usada para produzir a estrutura da córnea em camadas altamente organizadas e transparentes, replicando a anatomia e a função de um tecido saudável com precisão.
A paciente participante desse momento histórico tem 70 anos e aguardava o transplante há meses. Ela se recupera bem e a expectativa é que o estudo clínico avance para mais 15 pacientes. Vale explicar que a córnea é a camada frontal e transparente do olho, responsável por proteger o órgão e refratar cerca de 70% da luz que entra em direção à retina para formar imagens nítidas.
Por estar na “linha de frente” do globo ocular, a córnea é suscetível a diversas condições que podem causar cegueira se não tratadas. Entre as mais comuns estão as ceratites, as úlceras, as distrofias genéticas e o ceratocone, que permanece como a principal causa de transplantes de córnea no Brasil.
A ceratite é uma inflamação que pode ser causada por olho seco, irritações químicas ou uso inadequado de lentes de contato. A necessidade de transplante surge quando essas inflamações resultam em leucomas — cicatrizes opacas que impedem a passagem da luz. Já as úlceras são feridas abertas, geralmente infecciosas (bacterianas ou fúngicas), consideradas emergências oftalmológicas devido ao risco de perfuração.
O ceratocone, por sua vez, decorre do afinamento e da deformação progressiva da córnea, assumindo um formato de cone, distorcendo gravemente a visão. Os fatores genéticos e, principalmente, o hábito de coçar os olhos são os maiores responsáveis pelo agravamento. Os indivíduos com alergias respiratórias, como rinite, devem ter cuidado redobrado, pois o ato de friccionar os olhos fragiliza ainda mais a estrutura de colágeno da córnea.
Até julho de 2025, o Brasil contava com mais de 31 mil pessoas na fila de espera por uma córnea, com grandes demandas concentradas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Tecnologias como a bioimpressão 3D representam a esperança de reduzir essas filas e transformar o futuro da reabilitação visual no país.
*Oftalmologista
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”









