O santo ou a vida de pernas para o ar

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Por Laura Brito*

Dia 12 de junho é uma data especial de celebração do amor. É uma delícia ver as sugestões de presente e menu para comemorar o relacionamento e a decisão de estar juntos.

E o dia dos namorados é bastante democrático. Comemora quem namora, quem mora junto e quem está casado. Se a panela tem sua tampa, é dia de curtir.Publicidade

Se não bastasse, com a criatividade do brasileiro, ainda tem as brincadeiras, as festas de solteiros e muita diversão para todo mundo. Vi uma moça que disse que a noite do dia 12 de junho é ótima para ir à academia descobrir quem está solteiro de verdade e ainda garantir o shape.

Mas peço licença para sugerir uma nova data de celebração, um tipo de chá revelação. Passou o dia 12 sem saber se você está só namorando? Vamos fazer uma conversa especial no dia 13, dia de Santo Antônio.Publicidade

Para quem não sabe, Santo Antônio é o santo casamenteiro e a tradição é colocar sua imagem de ponta-cabeça até que se arrume um casamento. Mas te pergunto: se o namoro está com cara de união estável, já é para desvirar o santo?

Veja que nem todo namoro tem que virar casamento. Já se foi o tempo em que o namoro era, necessariamente, um rito de passagem para o matrimônio.

No mundo atual se espera que o namoro possa ser uma relação leve, descontraída, com o objetivo de desfrutar da companhia do outro. Mas só será leve se essa for a impressão das duas pessoas envolvidas. Não há suavidade alguma se um acha que é uma relação que se basta no deleite e o outro está com o Santo Antônio de pernas para o ar.

Nada é mais prejudicial aos relacionamentos afetivos que o desalinhamento de expectativas. O não dito é pai dos mal-entendidos. A contemporaneidade trouxe mais liberdade, mas, contraditoriamente, inibiu as pessoas de uma pergunta que deveria ser mais que natural: e esse relacionamento aqui, ele está indo para algum lugar? Qual o posto que ocupo na sua vida: namorado ou companheiro?

Essa questão pode ser vista apenas como um ultimato conservador ou uma pressão social desnecessária. Mas, para o Direito de Família, ela é a pergunta de um milhão.

O namoro não tem qualquer repercussão jurídica. Nenhuma. Mas se essa relação já tem jeito de união estável, ela pode dar ensejo a partilha, pensão, herança. Ou seja, não é um mero detalhe.

E não estamos falando apenas de como um chama o outro. É uma questão dos papeis sociais. Ainda que você se refira a essa relação como namoro, o porteiro acha que a sua namorada é, na realidade, sua esposa? Para seu namorado ter seu plano de saúde, você andou assinando papeis no RH da empresa, mesmo sem ler? Vocês foram padrinhos juntos do casamento dos amigos? Esse namoro pode ser lido como união estável.

Não tem prazo mínimo, não precisa ter filho, nem morar sob o mesmo teto é requisito essencial.

Então, o que você está esperando para servir honestidade nesse dia dos namorados? Para dizer, de coração, o que espera dessa relação? Quem sabe sugerir uma formalização do namoro, da união estável ou fazer um pedido de casamento?

Se te parece um papo indigesto, você não imagina quanto Omeprazol se toma em uma dissolução de união estável controvertida.

Transparência cai muito bem no dia dos namorados. Abuse!

* Advogada especialista em Direito de Família e das Sucessões, possui doutorado e mestrado pela USP e atua como professora em cursos de Pós-Graduação, além de ser palestrante, pesquisadora e autora de livros e artigos na área.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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