Antes de fugir, peça provas ao medo

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Mauro Condé*

Você já viu o filme A Identidade Bourne?

Há um instante em que a rua parece enlouquecer. Bourne aciona os alarmes dos carros … Sirenes berram, luzes piscam, homens correm … mas o perigo não está ali. O barulho é uma cortina. Enquanto todos obedecem ao susto, ele desaparece.

Imagine que dentro de nós exista uma rua semelhante …

Um pensamento grita: “Vai acontecer!” Outro acende: “Você não dará conta!” … e o corpo corre para salvar-se de um incêndio que talvez seja fumaça.

O alarme não é o inimigo; foi feito para proteger. O problema começa quando ganha o cargo de profeta. Há sinos que anunciam tempestades … E há sinos tocados pelo vento.

Sabedoria talvez seja não fugir antes de olhar pela janela. Coragem pode começar aí: não em silenciar a sirene… mas em abrir a porta e conferir se há mesmo perigo.

É a essa janela que David A. Clark e Aaron T. Beck nos convidam em “Vencendo a ansiedade e a preocupação”. No capítulo 6… “Transformando a mente ansiosa”… o terceiro passo é “reunir as evidências”: questionar pensamentos e procurar provas que os confirmem ou contradigam.

Trocamos o papel de réu assustado pelo de detetive. Em vez de aceitar “vou morrer”, “vou fracassar” ou “vou passar vergonha” como sentenças, perguntamos: que evidência confirma isso? Que evidência contradiz? Quantas vezes temi e nada ocorreu? Há outra explicação para o coração acelerado, o silêncio de alguém ou a demora de uma resposta?

A ansiedade costuma apresentar hipótese como veredicto. Conferir evidências devolve proporção ao medo.

Pegue o pensamento que o paralisa e escreva-o. Faça duas colunas: provas a favor e contra. Não confunda a intensidade do medo com a certeza do perigo. Depois formule uma frase mais justa: “Posso estar com medo; isso, por si só, não prova que estou em perigo”.

Então dê um passo responsável na direção que o medo proíbe: telefonar, sair, decidir, conversar, tentar. A coragem às vezes cresce porque agimos apesar do alarme.
Se a ansiedade, o pânico ou sintomas físicos forem intensos, persistentes ou preocupantes, procure avaliação médica e apoio profissional. O corpo merece cuidado; a mente também.

Talvez essa seja a lição: não precisamos obedecer a todo pensamento que nos visita. Nem toda sirene mente. Mas nenhuma deveria governar nossa vida sem antes mostrar as evidências.

*Palestrante, consultor e fundador do Blog do Maluco.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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