Antes de começar a correr, estes exames podem descobrir problemas que você nem sabia que tinha

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Salvador recebe abertura do Circuito de Corridas Parques do Brasil Crédito: Pexels

O Brasil tem hoje 15 milhões de pessoas que correm ao menos uma vez por semana, alta de 15% em relação a 2024, segundo pesquisa da Olympikus com a consultoria Box1824, divulgada em novembro de 2025. Metade desse público é formada por mulheres, uma mudança rápida em um esporte que, até pouco tempo, era visto como território masculino. O entusiasmo, porém, costuma vir antes da consulta médica: muita gente compra o tênis, baixa o aplicativo de corrida e começa a treinar sem passar por uma avaliação. É justamente nesse check-up que podem aparecer condições que a pessoa nem sabia que tinha.

O tema ganhou urgência em julho, após a morte de um participante durante uma maratona em São Paulo, que reacendeu a discussão sobre a importância da avaliação médica antes de provas de rua. O alerta de cardiologistas, no entanto, vale para qualquer pessoa que decide começar a correr, e não apenas para quem pretende disputar uma prova.

O coração nem sempre avisa antes

“A maioria dos problemas cardiovasculares que encontramos em quem está começando a correr não dá sintoma nenhum antes do exame”, diz o médico cardiologista Carlos Eduardo Suaide Silva, do Delboni e Lavoisier, marcas da Dasa, empresa líder em medicina diagnóstica no Brasil. “A hipertensão é um bom exemplo. Quase 30% dos adultos brasileiros convivem com pressão alta, segundo o Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, e a maior parte descobre isso numa consulta de rotina, não porque sentiu alguma coisa.”

Para Suaide Silva, a diferença de risco entre as faixas etárias deve orientar o tipo de exame realizado. Acima dos 35 anos, o infarto responde pela maior parte dos casos de morte súbita relacionados ao esforço físico, segundo a literatura de cardiologia do esporte. Abaixo dessa idade, o principal risco costuma ser outro: a cardiomiopatia hipertrófica, alteração estrutural do coração que afeta cerca de uma em cada 500 pessoas e muitas vezes só é identificada por meio de um eletrocardiograma ou ecocardiograma.

Por isso, a Diretriz Brasileira de Cardiologia do Esporte e do Exercício, da Sociedade Brasileira de Cardiologia com a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, recomenda consulta com eletrocardiograma para pessoas de até 35 anos sem histórico de doença e acrescenta exames de sangue e teste ergométrico para quem tem mais de 35 anos.

“Não precisa ser atleta para fazer essa avaliação. Quem vai treinar três vezes por semana no parque tem o mesmo motivo para procurar um cardiologista do esporte que quem vai correr uma maratona”, afirma.

Suaide Silva também chama atenção para o colesterol. Levantamento do Ministério da Saúde divulgado em agosto de 2026, por ocasião do Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, em 8 de agosto, mostra que quatro em cada dez brasileiros têm colesterol alto sem saber. “É outra condição silenciosa. A pessoa só descobre quando já teve um evento cardíaco ou quando faz o exame antes”, diz.

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, atualizada em 2025, revisou para baixo os níveis considerados seguros de LDL, o chamado colesterol “ruim”, o que torna o rastreamento ainda mais relevante para quem está começando a treinar.

O que o sangue conta

O check-up de quem pretende começar a correr não se resume ao coração. “Não existe um pacote de exames universal antes de começar um treino estruturado. Cada pessoa precisa ser avaliada individualmente, considerando suas características, seu histórico de saúde e o tipo de esporte que vai praticar. É isso que vai definir quais exames realmente fazem sentido”, explica a médica patologista clínica Annelise Wengerkievicz Lopes, diretora médica do Laboratório Santa Luzia, marca da Dasa em Santa Catarina.

“Ainda assim, alguns exames costumam ser úteis nessa avaliação inicial, como hemograma, glicemia, função renal, avaliação hepática e perfil lipídico, já que cobrem boa parte dos fatores de risco metabólico que interferem tanto no desempenho quanto na segurança de quem treina. O perfil lipídico, em especial, também é interessante para acompanhar ao longo do tempo, já que a atividade física costuma trazer melhora nesses resultados”, acrescenta a médica.

Um achado recorrente, segundo Annelise, é a anemia por deficiência de ferro, mais comum entre mulheres. Dados do Ministério da Saúde apontam que 29,4% das brasileiras em idade fértil têm deficiência de ferro, resultado de perdas menstruais, dietas restritivas e, entre quem treina, também do desgaste provocado pelo próprio exercício.

“É comum a pessoa achar que o cansaço extremo ou a falta de fôlego é falta de preparo físico, quando na verdade é anemia. O hemograma resolve essa dúvida rápido, e o tratamento costuma ser simples”, diz.

O coração da mulher

A participação feminina, que hoje já representa metade do público da corrida, também chama atenção para um grupo no qual as doenças cardiovasculares são uma das principais causas de morte e ainda podem ser subdiagnosticadas. Segundo a American Heart Association, referência usada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), uma em cada três mortes de mulheres no mundo está ligada a doenças cardiovasculares, índice superior ao de todos os tipos de câncer somados.

Estudos citados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mostram que mais de 60% das mulheres atendidas em pronto-socorro com dor no peito não apresentam obstrução visível nas artérias nos exames de imagem. O quadro pode atrasar o diagnóstico correto, já que a doença cardíaca em mulheres pode se manifestar de maneira diferente dos sintomas clássicos associados aos homens.

“Toda mulher que vai começar a correr deveria ouvir isso: coração não é assunto masculino. A avaliação vale tanto quanto para o homem, às vezes até mais, porque nela o sintoma engana com mais frequência”, diz Carlos Eduardo.

Quais exames pedir, por idade

Confira as recomendações dos especialistas por faixa etária antes de começar a treinar:

Até 35 anos, sem histórico de doença: consulta com cardiologista e eletrocardiograma uma vez por ano ou antes, caso surja algum sintoma novo.

Acima de 35 anos: consulta, eletrocardiograma, ecocardiograma, exames de sangue — hemograma, glicemia, perfil lipídico, função renal e hepática — e teste ergométrico.

Hipertensos, diabéticos, pessoas com colesterol alto ou histórico familiar de morte súbita: a avaliação deve ser feita antes desses marcos de idade, com investigação adicional conforme orientação médica.

Sinais de alerta durante a corrida

Interrompa o treino e procure atendimento médico se sentir:

Desmaio ou tontura intensa;

Falta de ar desproporcional ao esforço, a ponto de não conseguir falar;

Palpitação ou arritmia acompanhada de mal-estar;

Dor no peito, mesmo que leve ou incomum.

Fonte: Jornal Correio

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