Os gargalos e caminhos para escalar tecnologias assistivas no Brasil

0
19

O Brasil tem pesquisadores, empreendedores e capacidade de desenvolver tecnologias capazes de ampliar a autonomia de milhões de pessoas. Ainda assim, transformar uma solução promissora em um produto acessível e disponível em escala continua sendo um dos grandes desafios, existindo processos que envolvem validação, financiamento, regulação, produção e distribuição. É justamente nessa transição que precisamos avançar, pois não basta criar tecnologias que funcionam, é necessário construir as condições para que elas cheguem a quem precisa delas, com qualidade, preço viável e constância. 

A dimensão dessa oportunidade é significativa: segundo a Organização Mundial da Saúde, 2,5 bilhões de pessoas precisam de pelo menos uma tecnologia assistiva no mundo, e esse número poderá ultrapassar 3,5 bilhões até 2050. Quase 1 bilhão ainda não tem acesso aos produtos de que necessita. No Brasil, 14,4 milhões de pessoas têm deficiência, segundo o Censo 2022 do IBGE. Esses números evidenciam uma demanda social, mas não significam que o acesso será resolvido apenas pelo crescimento do mercado. 

Um dos principais gargalos brasileiros está na conexão entre pesquisa acadêmica e comercialização. O desenvolvimento científico é fundamental, mas transformar conhecimento em produto exige competências adicionais, como testes em condições reais, adequação regulatória, proteção intelectual, financiamento, capacidade produtiva e canais de distribuição. 

Para startups, especialmente as que desenvolvem dispositivos assistivos, percorrer todas essas etapas pode exigir recursos e conhecimentos difíceis de reunir em uma única organização. A consequência é que soluções tecnicamente promissoras podem demorar a chegar ao mercado ou não alcançar o público necessário. Por isso, precisamos fortalecer mecanismos que aproximem universidades, empreendedores, investidores, empresas e instituições públicas, oferecendo suporte especializado para que tecnologias já desenvolvidas avancem da validação à comercialização. 

Existe também uma condição que precisa atravessar todas essas etapas, que são as participações das pessoas que utilizarão as soluções. O princípio “Nada sobre nós sem nós”, defendido pelo movimento das pessoas com deficiência, não pode ser apenas uma declaração de intenção. Uma tecnologia pode apresentar bons resultados em tese e não funcionar adequadamente na rotina de seus usuários. Portanto, conforto, segurança, manutenção, custo e adaptação às diferentes necessidades são fatores decisivos para sua adoção. 

Outro desafio é compreender que escalar não significa simplesmente produzir mais unidades, mas sim garantir que uma solução possa ser fabricada, distribuída, mantida e adquirida por quem precisa dela. 

Nesse setor, usuário e comprador nem sempre são a mesma pessoa: o acesso pode depender de famílias, instituições de saúde, governos ou organizações sociais. Esse cenário exige modelos de financiamento e comercialização compatíveis com diferentes realidades econômicas, além de atenção às desigualdades regionais e à disponibilidade de serviços de suporte.

Uma tecnologia comercialmente bem-sucedida não produz inclusão automaticamente se seu preço ou sua distribuição continuar excluindo parte da população. Por isso, o crescimento precisa ser acompanhado por indicadores de acesso, adoção e impacto sobre a autonomia.

O Brasil pode ampliar sua participação nesse setor, mas isso exige tratar a escalabilidade como parte do processo de inovação desde o início. Precisamos aproximar ciência, indústria, investimento, políticas públicas e pessoas com deficiência, criando condições para que soluções promissoras se tornem acessíveis e sustentáveis. 

Escalar tecnologias assistivas é transformar conhecimento em acesso, e esse avanço só será completo quando a inovação deixar de ser uma possibilidade restrita a poucos e se tornar uma realidade para quem mais precisa dela. 

*Cofundador e CEO do ONOVOLAB

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here