Quando a inteligência artificial aprender o nosso trabalho … quem reconstruirá quem somos?

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Mauro Condé

Antes de ser chamado de rei da cirurgia plástica ou Michelangelo do bisturi … Ivo Pitanguy aprendeu diante do que quase ninguém suportava olhar.

Corredores de hospital. Luz branca. Gaze. Silêncio. Rostos marcados pelo fogo … pelo vidro … pelo acidente.

Ele se aproximava.

Não via uma deformidade. Via alguém tentando voltar para casa … para o trabalho … para o espelho … para si mesmo.

Então começava.

Luvas. Bisturi. Milímetros. Horas.

Onde o trauma havia deixado ausência … procurava forma. Onde a pele carregava a violência do acaso … suas mãos buscavam devolver contorno … expressão … presença.

Dias depois … outra sala. Outro silêncio.

Um espelho.

O paciente ergue a mão … toca o próprio rosto e demora alguns segundos para acreditar no que vê. Os olhos se enchem. Não há discurso. Apenas aquele instante raro em que alguém se reconhece novamente.

Pitanguy sabia que reconstruir um rosto podia ser muito mais do que reparar tecidos. Podia devolver a uma pessoa a coragem de levantar os olhos.

Talvez por isso sua história atravesse tão bem o nosso tempo.

Agora não há fogo. Há telas acesas.

Algoritmos trabalham de madrugada. Robôs aprendem. Agentes de inteligência artificial começam a executar tarefas que durante anos deram nome … salário e identidade a milhões de pessoas.

Em algum escritório … alguém olha para a tela com a mesma pergunta silenciosa de quem um dia olhou para um espelho:

– Ainda haverá lugar para mim?

Talvez a resposta de Pitanguy estivesse escondida naquela sala de cirurgia.

Diante do que fora perdido … ele não perguntava como devolver exatamente o passado. Procurava descobrir o que ainda podia ser reconstruído.

É também a nossa escolha.

Não competir com a máquina para continuar sendo quem éramos … mas usar as novas ferramentas para descobrir quem ainda podemos nos tornar.

Porque profissão não é identidade. Função não é destino.

Pitanguy reconstruía rostos para que pessoas voltassem ao mundo sem baixar os olhos.

A inteligência artificial talvez nos imponha uma cirurgia diferente: reconstruir competências … sonhos e coragem.

E … quando as máquinas aprenderem o nosso trabalho … talvez chegue a nossa vez de reaprender quem somos.

* Palestrante … Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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