Médicos criados por IA propagam falsas promessas de cura nas redes sociais

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Na foto-reprodução do YouTube, o ‘Dr. Tanaka’, fabricado por uma IA, se apresenta como Especialista em Medicina Chinesa e Longevidade – Foto: José Simões/Ag A TARDE

Com títulos apelativos e promessas de cura rápida sem comprovação científica, a desinformação ganha nova forma com falsas informações propagadas por médicos criados com inteligência artificial (IA) em redes sociais.

Para os que já tiveram contato com conteúdo produzido por IA reconhecer que o ‘médico’ presente no vídeo não é real talvez seja fácil, porém nos comentários das publicações desses perfis no Instagram e YouTube há manifestações dos que acreditam nos ‘tratamentos’. Força-tarefa do governo federal identificou 97 perfis do tipo no YouTube disseminando mentiras com relação à saúde.

Um dos perfis observados pela Reportagem conta com mais de 30 mil seguidores no Instagram e vídeos com mais de mil visualizações também no YouTube. O alcance dos temas vai de falsas informações sobre câncer à saúde sexual, sempre com imagens chamativas e discurso apelativo de quem revela algo que “não querem que você descubra” ou “que ninguém está comentando”.

Os vídeos produzidos por IA se aproveitam de elementos que remetem à medicina, muitas vezes por meio do uso de jaleco, ambiente que lembra consultório e falsas credenciais para dar credibilidade às informações.

O falso e o verdadeiro

Médicos também produzem conteúdo online sério seguindo essas características. Por isso é preciso cautela para obter informações relacionadas à saúde online, aponta o diretor do Departamento de Defesa das Prerrogativas do Médico (DEPMED) do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb-BA), José Abelardo de Meneses. Ele indica que esse conteúdo pode muitas vezes ser prejudicial para a saúde e o paciente terminar enganado, então ele recomenda a verificação das informações com seu médico.

“Procurar saber com seu médico, com médico da sua confiança, se aquelas informações procedem, se são úteis e verdadeiras, porque as pessoas podem produzir conteúdo útil para a sociedade ou causar um desastre para uma pessoa ou sua família”, afirma.

Com relação à responsabilização da disseminação dessas informações falsas com relação a saúde as plataformas não respondem automaticamente por todo conteúdo produzido por usuários, entretanto elas também possuem responsabilidade dependendo do cenário, indica o professor de direito cível e direito digital da Wyden, Felipe Torres.

“Se o assunto for de saúde pública, então a plataforma tem que ter uma atitude mais ativa, inclusive isso é algo que já foi chancelado por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo marco civil da internet”.

Já o responsável por criar esse vídeo, que utiliza essa falsa autoridade para induzir o público a acreditar em tratamentos e produtos, pode ser alvo de investigação. A partir da conduta praticada e do prejuízo causado a prática pode ser enquadrada legalmente de diferentes formas, elucida Felipe.

Médico ‘avatar’

Criar uma pessoa que nunca existiu – como um avatar -, dar a ela aparência de médico, gerar uma voz, sincronizar os movimentos da boca e produzir um roteiro é algo relativamente simples para a IA nos dias atuais.

Já é possível fazer isso sem grande conhecimento técnico e apenas com ferramentas comercialmente disponíveis, explica o pesquisador de inteligência artificial e pesquisador visitante do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Andre Stangl.

Contudo, ele aponta que uma informação passada por uma IA não necessariamente torna o conteúdo falso ou inútil, inclusive relata ter utilizado a ferramenta em sua colaboração para a Reportagem – e ter revisado o trabalho feito.

“O problema aparece quando a IA é utilizada para fabricar uma identidade e uma autoridade que não existem, sem deixar isso claro ao público”, argumenta. Ainda é possível perceber nesses vídeos problemas de sincronização labial, voz excessivamente regular, pequenas incoerências visuais e movimentos estranhos, indica o pesquisador.

Porém vale destacar que conforme essas ferramentas têm evoluído esses sinais estão desaparecendo. O pesquisador reforça que o grande X da questão é estar atento para tentativas de transformar questões complexas em soluções únicas, simples e vendáveis.

Entidades questionam regulação da IA pelo CFM

Grupo de 10 entidades representativas do setor da saúde questionam regulamentação de inteligência artificial na medicina, lançada pela Resolução 2.454/2026, do Conselho Federal de Medicina (CFM).

A crítica é que a norma ultrapassa a atuação dos médicos, criando obrigações para empresas do ramo tecnológico, distribuidores, desenvolvedores e sistemas que não exercem a medicina.

Na prática, o temor é que a norma invada o espaço de atuação de outros órgãos reguladores e crie então parâmetros diferentes para uma mesma atividade. Isso pode culminar, segundo as entidades, em exigências conflitantes, na redução da segurança jurídica e na previsibilidade que são necessárias ao desenvolvimento de novas soluções. A reportagem procurou o CFM para ouvir seu posicionamento, mas até o fechamento desta edição não teve resposta.

As organizações responsáveis pela manifestação foram: Aliança Brasileira da Indústria Inovadora em Saúde (ABIIS); Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI); Associação Nacional das Empresas de Benefícios e Atenção Primária e Secundária (ANEBAPS); Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS); e a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL).

Além dessas, a Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FESAÚDE); Instituto Ética Saúde, Movimento Inovação Digital (MID); Saúde Digital Brasil (SDB); e o Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Demais Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo (SindHosp).

Fonte: A Tarde

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