Imagem feita por Inteligência Artificial
Quem imaginou que viveríamos uma era de incertezas não conseguia imaginar que seria possível combinar tantas e com tal dimensão, velocidade e amplitude como vivemos atualmente. Em todos os planos e vetores.
Das questões políticas, militares e econômicas globais aos desvarios locais nas questões públicas, institucionais, sociais e igualmente políticas e econômicas, somos capazes de apostar que ninguém imaginou algo da magnitude do que vivemos no cenário atual.
E nesse caso, em vez de amaldiçoar a escuridão, é melhor acender alguma luz. Segue uma contribuição.
Em contextos em que a volatilidade exponenciada é a regra, a liderança deixa de ser apenas uma questão de gestão e passa a ser interpretação de realidade e a mobilização de pessoas.
Em ambientes de transformação acelerada envolvendo tecnologia, economia, demografia, comportamento de consumo e geopolítica, propomos o repensar da liderança que possa ser condensado nesses 10 temas.
1. Clareza de propósito em meio ao caos
Quando tudo muda, o propósito precisa permanecer nítido e reconhecido. Quando muda o mapa, ele funciona como bússola estratégica. No contexto atual, líderes não terão todas as respostas, mas precisam deixar claro por que a organização existe e para onde quer ir.
2. Capacidade de interpretar o ambiente
Tão importante quanto reagir rápido é interpretar corretamente os sinais. Líderes devem atuar como sensores do futuro, conectando tendências tecnológicas, sociais, econômicas e culturais e mobilizando na medida e na hora certa. Interpretar o ambiente deixou de ser um diferencial adicional. Está no centro das competências mais demandadas da liderança das organizações, ao lado de pensamento analítico, adaptabilidade e alinhamento social.
3. Decidir com informação imperfeita
Esperar certeza plena paralisa, e liderar em tempos incertos exige decidir com menos grau de informação do que gostaríamos, ajustar rapidamente e aprender em movimento. Em contextos de incerteza elevada, o custo do atraso cresce. A dimensão econômica mostra que a incerteza afeta investimento e decisão empresarial, o que reforça a importância de decidir por hipóteses, aprender rápido e corrigir rota. Nos atuais cenários, exercitar o aprender em movimento e velocidade pode superar a busca da perfeição.
4. Transformar receio em energia coletiva
A incerteza gera ansiedade nas organizações e nas pessoas. O papel da liderança nesse contexto é traduzir a complexidade em direção, criando o grau de confiança possível para que as pessoas continuem avançando.
5. Construir organizações adaptativas
Em cenários como os atuais, as empresas rígidas e complexas em seu modelo de organização têm muito maior dificuldade. Lideranças devem criar estruturas flexíveis, times multidisciplinares e ciclos mais rápidos de experimentação e reconfiguração a partir das respostas obtidas. A adaptabilidade passa a ser vantagem competitiva.
6. Integrar e envolver
Ambientes e momentos complexos demandam inteligência coletiva. A liderança deve desenvolver sistemas para capturar conhecimento e percepções da organização inteira e integrar pessoas e a própria organização em ecossistemas que permitam ampliar a visão e o conhecimento.
7. Valorizar a diversidade
Quando o futuro é incerto, pensar igual é risco. Se dois pensam igual, talvez um não seja necessário. É preciso maturidade exponencial para lidar com o contraditório. Times mais fortes são aqueles que reúnem visões diferentes, gerações e experiências diferentes. A diversidade exponencia a criatividade e a qualidade potencial das decisões.
8. Comunicar de forma transparente e constante
Em momentos mais complexos, a distância exponencia temores e a liderança deve se posicionar sobre o que sabe, o que ainda não sabe e compartilhar o que faz para tentar descobrir. Transparência constrói confiança e precisa ser valorizada como comportamento coletivo nas organizações.
9. Aprender como mantra
A intensidade da mudança não deixa alternativas. Liderar no atual e futuros momentos exige curiosidade genuína e permanente, desapego com as certezas do passado e obsessão pela atualização. E a genuína disposição de compartilhar o aprendido. Aprendizado contínuo deixou de ser diferencial de desenvolvimento e passou a ser condição de adaptação. Em ciclos de mudanças mais velozes, curiosidade, desapego de certezas antigas e atualização permanente se convertem em competências essenciais da liderança.
10. Serenidade estratégica
Talvez essa seja a competência mais difícil em cenários como o que vivemos, dadas as inevitáveis e sérias dúvidas que a liderança enfrenta. Em momentos de maior turbulência, pessoas observam ainda mais o comportamento das lideranças. Se existe equilíbrio, racionalidade e foco, as organizações mantêm sua capacidade de agir, mesmo que pressionadas a fazer acontecer o que precisa ser feito com maior agilidade.
Síntese estratégica
Em tempos de incerteza, liderança deixa de ter o controle como elemento fundamental e passa a ser orquestração virtuosa de inteligência coletiva em constante e contínuo movimento.
Qualquer simplificação envolvendo a complexidade dos momentos atuais deve merecer cautela e esse é um alerta fundamental com respeito a este decálogo. Mas, ao mesmo tempo, é uma forma de compartilhar reflexões que fazemos a todo instante.
Em sua proposta síntese, a liderança deixa de ser quem se propõe a saber e conhecer tudo para ser quem busca interpretar o processo em transformação e se antecipar sempre que possível. Inspira o repensar da própria organização, do modelo de gestão e da cultura. Mobiliza pessoas para o engajamento e aprende e inspira o aprender continuamente.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo









