Laura Brito*
Depois das alegrias – verdadeiras ou não – das festas de fim, é chegada a hora de falarmos sobre saúde mental. Janeiro Branco é uma campanha que convida a sociedade a colocar o bem-estar psicológico no centro das prioridades. Em 2026, o convite é: cuidar da mente precisa ser um compromisso coletivo e precisamos edificar relações mais humanas.
Todos nós, como sociedade, devemos estar atentos aos riscos a que nossa saúde mental está submetida. Devemos refletir sobre o isolamento, os impactos das redes sociais, a falta de conexões verdadeiras. Os números dos transtornos mentais na adolescência não param de subir e, entre os adultos, já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho.
Ainda que precisemos de um pacto comunitário, é a família a primeira casa da saúde mental. É na segurança de uma infância protegida e das relações afetivas firmes que construímos uma base sólida para a nossa mente: o apego seguro, a escuta ativa, a sensação de ter aonde chegar e ser acolhido. A casa e a família são referências que podem ser antídoto das pressões externas. Bom, desde que sejam, de fato, ambientes estáveis.
Como advogada familiarista, tenho tranquilidade de dizer que dentro de famílias que prestigiam a saúde mental de seus membros, é possível passar por tempos mais difíceis sem que tudo se desmorone. A tempestade passa e a casa fica.
Quando acontece um divórcio, é natural que cada um tenha uma perspectiva sobre as causas e as repercussões do rompimento. Ainda assim, se a integridade psíquica das crianças estiver no centro, é possível passar por essa fase com dignidade. Vale, claro, refletir sobre a responsabilidade afetiva entre o casal, quando ambos têm o cuidado de pensar no futuro do outro a partir da reconfiguração familiar.
No transcorrer de um inventário, ainda que existam providências urgentes e que demandem firmeza, é sempre cabível olhar para o lado e tentar compreender o processo de luto das outras pessoas que compartilham a perda.
Merece ainda mais atenção a saúde mental daqueles a quem foi delegada a missão de principal cuidador dos idosos da família, especialmente dos que enfrentam a demência. O que temos feito em casa para evitar o colapso psicológico de quem se dedica ao trabalho invisível?
Em tempos em que o nosso bem-estar psicológico está constantemente em jogo: escola, trabalho, redes sociais, a família pode e deve ser nosso porto seguro. Quando a saúde mental está em risco, é importante que as pessoas saibam onde se abrir, onde podem estar verdadeiramente vulneráveis.
Isso não significa que a família substitui o trabalho dos profissionais da saúde mental. De maneira alguma. Mas pode ser entre os que amamos que vamos descobrir que, além do afeto, é preciso uma intervenção profissional.
Diante disso, espero que nesse janeiro branco façamos do cuidado com a saúde mental um compromisso familiar, já que é na família que a mente encontra abrigo antes de precisar de socorro.
*Laura Brito é advogada especialista em Direito de Família e das Sucessões, possui doutorado e mestrado pela USP e atua como professora em cursos de Pós-Graduação, além de ser palestrante, pesquisadora e autora de livros e artigos na área.
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









