Crescimento dos números chama atenção para os riscos da obesidade – Foto: magnific
Em dez anos, a proporção de adultos com obesidade acompanhados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, na Bahia, cresceu 54,5%. Os obesos representavam 20,63% do total de 1.360.143 adultos acompanhados pelo Sisvan, no Estado, em 2016 e passaram a representar 31,88% do total de 2.306.850 adultos acompanhados até 29 de outubro deste ano.
O crescimento dos números neste período chama atenção para os riscos da obesidade, que está associada a outras 200 doenças e também envolve estigmas que impactam na saúde mental das pessoas e dificultam o acesso a tratamentos.
Bahia é o terceiro estado com maior número de adultos com excesso de peso, ainda conforme o Sisvan. Entre janeiro e 29 de outubro deste ano, foram 1,56 milhão de adultos acompanhados com essa condição, o que equivale a 67,7% dos monitorados – desse total, 827,5 mil tinham sobrepeso e 735,3 mil, obesidade.
Em 2016, por exemplo, 54,1% dos adultos acompanhados pelo Sisvan na Bahia apresentavam excesso de peso, a proporção subiu para 62,1% em 2022 e seguiu até atingir os já citados 67,7% neste ano.
Essa ampliação da necessidade da população é perceptível no Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba), referência estadual que recebe pacientes com obesidade após esgotadas as possibilidades de manejo na atenção primária.
A unidade realiza cerca de oito mil consultas por mês para diferentes doenças endócrinas. Apenas obesidade e diabetes, juntas, respondem por quase metade dos atendimentos.
Fenômeno mundial
O crescimento da obesidade, não é um fenômeno baiano, mas uma tendência que atinge o país e o globo e é tema das discussões do XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade (FLASO 2026), que neste ano acontece no Centro de Convenções de Salvador.
A explicação para o aumento da obesidade envolve fatores genéticos, porém há também uma influência cada vez maior do nosso ambiente, explica a endocrinologista do serviço de diabetes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do departamento de advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Fernanda Braga.
Fernanda aponta que o padrão alimentar da população em geral tem mudado por conta da queda de qualidade dos alimentos, especialmente para a população de baixa renda, e as técnicas usadas pela indústria alimentícia para confundir no momento da compra.
“Hoje não vivemos mais a questão da fome, mas precisamos discutir a qualidade dessa alimentação, porque grande parte da população brasileira se alimenta de ultraprocessados e não sabe o que estão comprando, por exemplo, a caixinha de suco da criança o que menos tem é fruta”, comenta.
Junto com isso, ela destaca a necessidade do SUS possuir uma linha de cuidado estruturada para pessoas que vivem com obesidade, o que envolve capacitação de profissionais e estrutura física para atender essas pessoas. Essa dificuldade no atendimento e os estigmas relacionados à enfermidade dificultam o processo de busca por ajuda.
Estigma e ajuda
Desde nova, Tamiris de Sá, de 39 anos, já tinha questões com peso, vergonha do corpo e isso tudo culminou em um processo de timidez justamente com a intenção de não ser vista e evitar o “olhar que diminui a gente”, conta.
Contudo, a experiência de encarar esse olhar que a limitava apenas a “um corpo gordo e nada mais além disso” perpassava por todos os âmbitos de sua vida, inclusive na saúde. “Quando a gente vai a um consultório por qualquer problema, mesmo que tenha batido o dedinho no sofá, a sua dor é atribuída à obesidade”, diz.
Isso era mais um agravante em sua situação, que evoluiu com um processo de depressão e culminou com ganho de peso e outras doenças associadas à obesidade. Foi por meio da procura por terapia, por uma melhora em sua saúde mental que Tamiris, hoje digital influencer, entendeu que sua vida tinha valor e passou a se ver de outra forma.
“Carregamos esse estigma do olhar do outro diminuindo a gente tanto que acabamos acreditando naquilo e pregando como verdade absoluta para nossa vida”, afirma. Essa percepção muitas vezes é um fator que afasta pessoas com obesidade da busca por ajuda.
A ativista e coordenadora do departamento de voz da Abeso, Inara Batista, ressalta que trazer a voz do paciente para dentro da conversa é importante por conta do impacto desses estigmas. Ela conta que está com um problema de saúde em investigação e que para participar do congresso seu médico indicou uma série de cuidados, inclusive a utilização de uma cadeira de rodas se ela sentisse necessidade.
“Essa é a primeira vez que peguei a cadeira porque existe aquela coisa do medo de ser julgada, é algo que a gente internalizou, ao ponto de você precisar de algo, mas ter medo do julgamento”, pontua.
Diante do peso desse estigma, a delegada da Bahia da Abeso e atuante no Cedeba, Thaisa Trujilho, ressalta a necessidade de que a atenção primária seja treinada para avaliar e atender pacientes com obesidade.
Ela conta que têm sido feitas ações para explicar aos médicos a importância do tratamento multidisciplinar da obesidade e orientações sobre como conduzir esse paciente na atenção primária.
“Esse treinamento da atenção primária é extremamente importante para termos vários braços e melhorar a assistência mais próxima da casa do paciente, na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro, encaminhando apenas os casos de maior complexidade para a atenção secundária ou terciária”.
Fonte: A Tarde









