Fronteira sob tensão: EUA testam tecnologia de feixe de calor no controle migratório

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Sistema de Negação Ativa da Diretoria Conjunta de Armas Não Letais é posicionado antes de uma demonstração em Wellton, Arizona, em abril de 2017 Crédito: Reprodução/CNN/Cabo Andrew M. Huff/Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA

O Pentágono autorizou o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) a testar uma arma de calor de uso militar e desenvolver estratégias para uma possível utilização em operações na fronteira sul do país. A informação foi divulgada pela CNN, que obteve um memorando assinado pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, no mês passado.

Conhecido oficialmente como Sistema de Negação Ativa (Active Denial System, ou ADS), o equipamento dispara um feixe invisível de ondas eletromagnéticas que pode alcançar pouco mais de 800 metros, segundo as Forças Armadas americanas. A energia provoca uma sensação intensa de calor na pele, semelhante à de se aproximar de um forno quente, de acordo com autoridades militares

O efeito, descrito como uma sensação de queimadura, leva a uma reação instintiva de afastamento. Segundo os militares, o desconforto e o formigamento podem durar de 10 a 15 minutos.

A possibilidade de empregar a arma na fronteira entre os Estados Unidos e o México não tem precedentes. O governo de Donald Trump colocou o controle migratório e a segurança fronteiriça entre suas principais prioridades, mas o pedido do DHS não detalha onde os testes ocorrerão nem como o equipamento poderá ser usado futuramente.

Empréstimo terá duração de sete meses

O memorando autoriza o empréstimo temporário de um sistema ADS por sete meses, a partir de setembro, e estabelece que o equipamento não deverá ser operado por integrantes do Departamento de Guerra, denominação adotada pelo governo americano para o Departamento de Defesa. Ao fim do período, o DHS poderá solicitar a extensão do empréstimo, caso considere necessário manter o sistema em operações na fronteira, segundo uma autoridade de Defesa ouvida pela CNN.

Procurado pela emissora, o Pentágono encaminhou os questionamentos ao Departamento de Segurança Interna.

A possibilidade de usar o equipamento para dispersar grupos de migrantes já havia sido discutida por autoridades da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), mas a arma nunca foi empregada com essa finalidade.

As Forças Armadas americanas chegaram a utilizar o sistema brevemente no Afeganistão, há quase duas décadas, mas decidiram não adotá-lo em operações de combate ativo. Também houve discussões sobre seu uso para controlar multidões em instalações americanas no exterior onde eram mantidos suspeitos de terrorismo, mas a proposta foi abandonada, segundo uma fonte familiarizada com as deliberações.

Risco de acidentes e dúvidas legais

Entre os obstáculos para o uso da arma estão questões relacionadas à legalidade, à intensidade da força empregada, à eficácia do equipamento e à soberania territorial. As dúvidas incluem a possibilidade de atingir pessoas que ainda estejam em território mexicano, antes de cruzarem a fronteira americana.

Uma das principais preocupações é que o efeito da arma provoque acidentes ou coloque vidas em risco. Um ex-funcionário da CBP ouvido pela CNN alertou para a possibilidade de pessoas atingidas entrarem em rios ou se afogarem durante uma tentativa de fuga.

O setor de El Centro, que cobre cerca de 113 quilômetros da fronteira entre os dois países, chegou a avaliar o sistema anos atrás, quando Rodney Scott, atual comissário da CBP, chefiava a unidade. Na ocasião, as autoridades consideraram se o equipamento poderia desestimular travessias irregulares em um rio da região ou fazer com que as pessoas saíssem da água.

Também havia preocupação com a necessidade de operações de resgate caso alguém ficasse incapacitado após ser atingido pelo feixe. Não está claro por que a arma não chegou a ser utilizada naquela ocasião.

Em 2018, antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, autoridades da CBP voltaram a avaliar a possibilidade de empregar o sistema contra migrantes. A então secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, rejeitou a proposta.

Um ex-funcionário do DHS afirmou à CNN que a discussão envolvia o risco de tratar migrantes e cidadãos como combatentes inimigos, em uma abordagem considerada desumana.

Mais recentemente, agentes da Patrulha de Fronteira também questionaram a necessidade do equipamento diante da redução do número de travessias irregulares e do aumento do efetivo, segundo outro ex-integrante da CBP ouvido pela emissora.

Fonte: Jornal Correio

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