Lucas Infante*
Durante muito tempo, nossa relação com a comida foi construída em torno da abundância. Prateleiras cheias, variedade de produtos, promoções e a sensação de que sempre haveria mais. Comprar além do necessário muitas vezes foi entendido como uma forma de garantir conforto, praticidade e até segurança.
Mas essa lógica começa a ser colocada em xeque.
Em um mundo de recursos naturais limitados, mudanças climáticas mais frequentes e cadeias de abastecimento cada vez mais pressionadas, a ideia de que podemos produzir, comprar e descartar alimentos sem grandes consequências já não parece sustentável.
O desperdício ajuda a deixar essa contradição evidente. Segundo o relatório Driven to Waste, da WWF e Tesco, cerca de 2,5 bilhões de toneladas de alimentos são perdidos ou desperdiçados no mundo por ano, o equivalente a 40% de toda a comida produzida no planeta.
Ao mesmo tempo, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentam a fome no mundo. O contraste é difícil de ignorar: enquanto uma parcela do mundo lida com excesso, outra ainda enfrenta dificuldade para colocar comida suficiente na mesa.
Talvez por isso estejamos começando a perceber uma mudança importante na forma como consumimos.
O consumidor de hoje não olha apenas para o preço de um produto. Em diferentes graus, também começa a considerar origem, qualidade, aproveitamento e impacto. Produtos que antes poderiam ser rejeitados pela aparência encontram novos espaços.
Alimentos próximos do fim da sua vida comercial ganham alternativas de venda. O planejamento das compras passa a ser uma ferramenta não apenas de economia, mas também de redução do desperdício.
Essa mudança não significa consumir menos por consumir menos e sim consumir melhor. E existe uma razão prática para isso.
O alimento que chega à nossa mesa carrega muito mais do que o seu preço. Antes de ser comprado, passou por produção, água, solo, energia, transporte, armazenamento e trabalho. Quando é descartado sem ser consumido, todos esses recursos também são desperdiçados.
O impacto ambiental é significativo. As perdas e o desperdício de alimentos respondem por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e ocupam aproximadamente 28% das terras agrícolas do mundo.
E as mudanças climáticas tornam essa discussão ainda mais urgente. Temperaturas mais altas, eventos extremos e períodos de seca tornam mais difícil armazenar, transportar e comercializar alimentos, aumentando o risco de perdas ao longo da cadeia.
É um ciclo que merece atenção. As mudanças climáticas pressionam a produção de alimentos. A produção exige cada vez mais eficiência no uso dos recursos. E, ainda assim, continuamos descartando uma parcela significativa do que conseguimos produzir.
Nesse cenário, empresas também começam a ter um papel diferente.
Varejistas, restaurantes, indústrias e outros negócios precisam acompanhar a transformação do comportamento do consumidor e, ao mesmo tempo, repensar a forma como lidam com seus próprios excedentes.
Estoques mais eficientes, melhor previsão de demanda, novos canais para produtos que não foram vendidos e modelos que aproximam oferta e procura são caminhos que podem reduzir perdas sem abrir mão do resultado.
É justamente nesse ponto que tecnologia, gestão e mudança de comportamento se encontram.
O desperdício deixa de ser apenas aquilo que acontece depois da venda. Ele passa a ser uma oportunidade para repensar toda a relação entre produção, oferta e consumo.
Talvez estejamos entrando em uma nova etapa dessa relação. Uma em que abundância não seja mais confundida com excesso. Em que ter mais opções não significa necessariamente comprar mais. E em que valorizar um alimento também signifique reconhecer tudo o que foi necessário para colocá-lo na nossa frente.
A próxima mudança no consumo de alimentos pode não estar em descobrir como produzir cada vez mais. Pode estar em aprender a aproveitar melhor aquilo que já produzimos.
No fim das contas, não se trata de escolher entre abundância e escassez. Trata-se de construir uma relação mais inteligente com o que temos.
Se os recursos são limitados e a demanda continua crescendo, talvez a pergunta para o futuro seja simples: precisamos realmente de mais, ou precisamos aprender a desperdiçar menos?
* Fundador e CEO da Food To Save
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia









