Com o Pix no centro, reforma tributária muda o tempo do dinheiro

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Edson Vasconcelos*

A reforma tributária introduz algo mais profundo do que um novo mecanismo de cobrança. Ao adotar o split payment, o Estado altera a lógica do fluxo financeiro das empresas e encurta, de forma definitiva, o caminho entre a geração de receita e a apropriação do imposto. Não se trata só de tecnologia ou simplificação: é uma mudança sobre quem sustenta o tempo dessa equação.

Do ponto de vista fiscal, o ganho é evidente, pois a arrecadação se aproxima do momento da transação, reduz riscos de inadimplência e esvazia parte do contencioso. O sistema fica mais previsível e menos sujeito a atrasos. Mas essa previsibilidade tem contrapartida. O que antes ficava temporariamente no caixa das empresas, até o recolhimento, deixa de existir como margem de manobra.

Esse intervalo sempre foi parte do funcionamento real da economia. Não aparecia nas normas, mas sustentava o dia a dia financeiro, especialmente em setores que vendem a prazo e recebem depois. Ao eliminar esse espaço, o split payment não cria um problema novo, mas torna visível uma fragilidade antiga: a dependência de um fluxo de caixa esticado para manter a operação de pé.

O impacto tende a aparecer menos nas grandes estruturas, que conseguem reorganizar prazos ou acessar crédito, e mais nas empresas que operam no limite, com pouco espaço para absorver choques. Nesses casos, a retenção imediata do imposto antecipa uma saída de recursos que ainda não entrou. É um desalinhamento simples, mas com efeito direto sobre liquidez.

A discussão, portanto, não é sobre eficiência, que existe, mas sobre distribuição de esforço. Ao acelerar sua arrecadação, o Estado reduz sua exposição ao risco e transfere parte dessa pressão para o setor produtivo. O equilíbrio da reforma passa por reconhecer esse deslocamento e evitar que a busca por previsibilidade fiscal comprima, de forma silenciosa, a capacidade de funcionamento de quem está na ponta.

* CEO e fundador da EcommIT

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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