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O Brasil acaba de dar um passo que parece pequeno e não é: a Getnet e a Mastercard anunciaram uma parceria que permite pagar compras online só com a digital ou com o reconhecimento facial. Sem senha, sem copiar e colar código, sem sair do site da loja para abrir o aplicativo do banco.
Você escolhe o Pix biométrico no checkout, o aparelho lê seu rosto ou sua digital, e o pagamento é aprovado ali mesmo, na tela da loja. Funciona assim: na primeira compra há um cadastro único, em que você vincula sua conta pelo Open Finance com validação no aplicativo do banco; dali em diante, é só o sensor do celular ou do computador.
E não é um movimento isolado: a Visa lançou solução parecida semanas antes. Quando as duas gigantes dos cartões correm ao mesmo tempo para tirar a senha do caminho do Pix, é porque o jogo virou. Parece detalhe técnico. Não é. É o Brasil entrando numa trilha que a China abriu quase dez anos atrás, e eu, que vivo com um pé em cada país, já vi onde essa estrada vai dar.
Por que isso é maior do que parece
Primeiro, o tamanho do terreno onde essa novidade cai. O Pix não é um meio de pagamento entre outros: é o meio de pagamento do Brasil. Em 2025, foram 63,8 bilhões de transações, um salto de 52% em um ano. No ano passado, quase 80 bilhões (dados do Banco Central). O BC também informa que são mais de 170 milhões de usuários, ou seja, 80% da população.
O Pix sozinho fez, em 2024 (depois seguiu vencendo), mais transações do que todos os outros meios de pagamento somados: cartão de crédito, débito, pré-pago, boleto, TED e cheque, juntos, ficaram em 50,8 bilhões (dados consolidados da Febraban com BC e Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços). Crédito e débito, que reinaram no varejo por décadas, somaram 36,5 bilhões, pouco mais da metade do que o Pix fez sem precisar de mais nenhum recurso. Quando uma mudança de experiência encontra uma base desse tamanho, o efeito não é incremental. É avalanche.
E a mudança de experiência é exatamente onde mora o valor. Hoje, pagar com Pix numa loja online significa gerar código, copiar, abrir o app do banco, colar, conferir, confirmar, voltar para a loja e torcer para a página não ter expirado. Cada uma dessas etapas é um degrau onde o cliente desiste. A biometria corta tudo isso para um gesto: olhar para o celular. O que era um processo vira um reflexo.
O filme que eu já vi passar na China
Agora deixa eu contar o que aconteceu do outro lado do mundo, porque o roteiro é conhecido. Em 2017, o Alipay lançou o Smile to Pay: a pessoa sorria para a câmera e a compra estava paga. Na época parecia truque de feira de tecnologia. Hoje, na China, eu pago máquina de venda automática com o rosto, pago mercado com o rosto, e no metrô de algumas cidades já se entra encostando a palma da mão no leitor.
O QR code, que para o brasileiro ainda soa moderno, lá já é tratado como método antigo. É a segunda geração de pagamento sendo aposentada pela terceira, enquanto boa parte do mundo ainda discute a primeira.
E a lição chinesa é de uma clareza brutal: quando o pagamento fica invisível, o consumo explode. Não foi coincidência o comércio eletrônico chinês virar o maior mercado do mundo. Foi consequência de uma década tirando atrito do caminho entre a vontade de comprar e a compra concluída.
Menos etapa no checkout significa menos carrinho abandonado, e carrinho abandonado é onde o varejo online sangra. Essa é exatamente a aposta que o varejo brasileiro está fazendo agora.
O que vem depois
O Brasil demorou, mas está na mesma trilha, e andando rápido. O Pix aposentou o dinheiro físico numa velocidade que surpreendeu o mundo inteiro. Agora a biometria começa a aposentar a senha e o copia e cola. E a fila anda: o Pix por aproximação, de encostar o celular na maquininha, foi lançado em fevereiro de 2025, e o Banco Central já anunciou o Pix parcelado e o Pix em garantia no radar. E, se a experiência chinesa servir de guia, o próximo capítulo já está escrito: em poucos anos, sair de casa sem carteira e sem celular deixa de ser esquecimento e vira escolha. Seu rosto passa a ser o seu próprio banco.
Claro que existe a outra pergunta, a que todo mundo faz quando vê isso de perto: e a segurança? É legítima, e a resposta honesta tem duas partes. A tecnologia por trás é a mesma das passkeys, o padrão que Apple e Google adotaram para aposentar senhas no mundo todo: a chave criptográfica mora no seu aparelho e não viaja pela internet.
A biometria elimina o elo mais fraco da corrente, que sempre foi a senha anotada, repetida ou entregue num golpe. Ninguém liga para você pedindo seu rosto. Por outro lado, nenhuma tecnologia dispensa bom senso: o golpe se adapta, e a engenharia social vai continuar mirando a pessoa quando não conseguir mirar o sistema. A diferença é que, com a chave guardada no seu corpo, roubar a chave ficou muito mais difícil.
A leitura que eu faço é esta: o Brasil construiu em cinco anos, com o Pix, o que a China levou uma década para construir com Alipay e WeChat Pay, e agora começa a colher a parte mais interessante dessa infraestrutura. Para quem vende online, a mensagem é direta: cada segundo de fricção a menos no checkout é dinheiro que para de vazar.
E para quem observa os dois países, como eu, fica a constatação de sempre. O futuro do dinheiro não está sendo inventado no Ocidente. Ele está sendo testado na China e chegando aqui com sotaque brasileiro, e dessa vez a adaptação está sendo mais rápida do que nunca.
Fonte: Mercado&Consumo









