Por Ângela Mathylde Soares*
A chamada “novela das 8” nunca foi apenas entretenimento. Há décadas, é um dos maiores fenômenos socioculturais, funcionando como um espelho coletivo em que o Brasil se vê, se reconhece, se confronta e, muitas vezes, se educa emocionalmente.
No horário nobre, dramas familiares, conflitos éticos, desigualdades sociais, amores possíveis e impossíveis entram nas casas e provocam conversas que não aconteceriam de outro modo. Do ponto de vista da neurociência, a novela ativa processos profundos de identificação emocional.
O cérebro humano aprende por narrativas. Quando se acompanha a trajetória de um personagem, o sistema límbico é acionado e o telespectador sente raiva, empatia, compaixão, medo e esperança, como se aquela história também fosse sua. É por isso que a novela mobiliza emoções, muda opiniões e, muitas vezes, influencia comportamentos sociais.
A novela também cumpre um papel pedagógico silencioso. Ao tratar temas como violência doméstica, saúde mental, inclusão, preconceito, ética, maternidade, paternidade e relações de poder, rompe o silêncio que muitas famílias mantêm dentro de casa. Assuntos difíceis passam a ser discutidos em casa, no trabalho e nas escolas, mediando diálogos até então evitados.
Entretanto, é preciso atenção crítica. Nem tudo que emociona educa. Quando conflitos são romantizados, comportamentos abusivos normalizados ou transtornos psíquicos tratados de forma superficial, o impacto pode ser negativo, reforçando estigmas e crenças equivocadas. O cérebro aprende por repetição — e a repetição de narrativas distorcidas também ensina.
Ainda assim, a força da novela reside, justamente, no poder de alcance. Afinal, em um país marcado por desigualdades educacionais, se torna uma linguagem acessível, capaz de sensibilizar mais do que muitos discursos técnicos. Quando bem conduzida, é aliada da psicoeducação, da empatia social e da construção de uma consciência coletiva mais humana.
A novela não termina quando sobem os créditos, pois continua nos debates, nas redes sociais, nas identificações silenciosas e nas pequenas mudanças de olhar. Quer se goste ou não, segue sendo um dos maiores palcos em que o Brasil encena suas dores, contradições, afetos e possibilidades de transformação.
*Psicopedagoga e neurocientista da educação
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









