Quimioterapia é uma das opções de tratamento para câncer colorretal em estágios mais avançados Crédito: Freepik
Até pouco tempo atrás quase um desconhecido da maioria da população, o câncer de cólon e reto já é o segundo mais frequente no Brasil – só fica atrás do câncer de mama, em mulheres, e de próstata, em homens. A previsão é que, em 2026, sejam diagnosticados 2.170 novos casos da doença na Bahia – desses, 590 apenas em Salvador.
Os números foram divulgados no último mês, pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), na publicação Estimativa 2026-2028: Incidência do Câncer no Brasil. Em comparação, o último estudo, que avaliou 2023 a 2025, indicava 1970 novos diagnósticos do câncer colorretal em 2023 – ou seja, houve um aumento de 11% na Bahia, em apenas três anos.
Além disso, o órgão prevê que as mortes prematuras – ou seja, de pessoas com idades entre 30 e 69 anos – devem aumentar 10% até 2030.
No mês passado, o ator James Van Der Beek morreu aos 48 anos, após ter sido diagnosticado com a doença em 2024. Conhecido por estrelar a série Dawson’s Creek no fim dos anos 1990, ele descobriu o tumor já no estágio 3. O diagnóstico foi o mesmo da cantora Preta Gil, que morreu no ano passado, aos 50 anos.
“Isso é uma preocupação muito grande para nós, oncologistas e gastroenterologistas: esse aumento, particularmente entre jovens”, diz o médico oncologista Eduardo, da Oncoclínicas.
Em geral, não há uma resposta única capaz de explicar o crescimento de diagnósticos de câncer. Mas, entre as principais razões por trás do aumento costumam ser ligadas aos hábitos de vida. “O índice de obesidade aumentou muito entre crianças, sem fazer atividade física, e a dieta mudou muito também. Refrigerante, bolo, doce, essas coisas… Eram só em dias de festa de aniversário. A gente vê esse mesmo aumento em países como os Estados Unidos e a gente copia esse estilo de vida, sem falar em estresse e falta de tempo”, analisa.
Uma vez que o câncer de cólon e reto também é mais comum a partir dos 60 anos, o aumento da expectativa de vida também leva a esses índices maiores. “Antigamente, a gente também não tinha diagnóstico. Hoje, com os exames que a gente tem, é possível fazer diagnóstico. Por outro lado, um grande problema no Brasil e na Bahia, em particular, é a dificuldade de acesso a esses exames de rastreamento”, explica Moraes.
Por outro lado, um problema comum é quando os sintomas iniciais são negligenciados ou atribuídos a condições benignas, a exemplo hemorroidas ou síndrome do intestino irritável. Se a pessoa tem sangramento nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal (diarreia ou constipação), dor abdominal recorrente, perda de peso sem causa aparente e anemia (em homens, principalmente), a indicação é de procurar um especialista.
“O aumento dos casos em adultos jovens exige uma mudança de mentalidade. Nem todo paciente com menos de 50 anos e sangramento intestinal tem um problema benigno. É preciso avaliar com critério. Quando diagnosticado em fase inicial, o câncer colorretal tem altas taxas de cura. O atraso no diagnóstico é o que compromete o prognóstico”, diz o médico oncologista André Luiz Silveira, especializado em tumores gastrointestinais do Hcor.
Tratamento
A colonoscopia é o exame considerado ‘padrão ouro’ para o rastreamento de câncer de cólon e reto, porque consegue observar todo o intestino grosso. De acordo com o médico oncologista Eduardo Moraes, a maior parte dos tumores de intestino atingem o intestino grosso (cólon), chegando a 95%. Poucos afetam o intestino delgado.
“A recomendação atual é fazer a primeira colonoscopia, independente de sintomas, entre 45 e 50 anos. É um exame feito sob anestesia, você não sente nada. Só o preparo é desagradável, porque tem que fazer uma dieta especial para limpar o intestino e tomar laxante. Mas a gente consegue ver se tem pólipos, que é como se fossem verrugas e podem se transformar em câncer”.
Hábitos saudáveis (como alimentação rica em fibras, redução de consumo de ultraprocessados, atividade física, controle do peso corporal e evitar tabagismo e álcool), devem ser combinados com os exames de rastreio. Como reforça o médico oncologista André Luiz Silveira, do Hcor, a idade jovem não é sinônimo de baixo risco.
“A combinação entre atenção aos sintomas, acesso ao rastreamento e adoção de hábitos saudáveis pode alterar significativamente o curso da doença — e impedir que a tendência de crescimento entre adultos jovens se consolide nas próximas décadas”, diz.
A colonoscopia pode servir até mesmo como uma cura. Se um médico encontra um pólipo já em transformação para um tumor maligno, ele pode ser removido na própria colonoscopia, de forma curativa, com uma raspagem.
Por outro lado, se a doença invadir a parede do intestino, vai ser necessário fazer uma cirurgia, que também pode ser suficiente para o paciente ficar curado. “Naqueles casos em que o tumor já passou da parede e deu metástase para os linfonodos, a indicação é que, além da cirurgia, o paciente faça quimioterapia”, explica o oncologista Eduardo Moraes, da Oncoclínicas.
Na doença precoce, as chances de cura chegam a 90%. No entanto, quando o câncer atinge estágios mais avançados, esse percentual vai caindo. Radioterapia pode ser usada para tumores no reto, em combinação com a quimioterapia, para reduzir recidivas ou para prevenir cirurgias. Hoje, esses tratamentos também conseguem evitar 30% dos casos de amputação do reto e do uso da bolsa de colostomia.
Porém, quando a lesão já se espalhou para outros órgãos – ou seja, metástase à distância -, o tratamento deve ser de cirurgia com quimioterapia. Nesses casos, já existe a possibilidade de combinar a quimioterapia com agentes biológicos ou com imunoterapia. Segundo o oncologista Eduardo Moraes, isso aumenta a chance de sobrevida do paciente.
“Em um câncer avançado, sem tratamento nenhum, a chance de sobrevida é de seis a nove meses. Com a quimioterapia básica, fica entre um ano e um ano e meio. Com a quimioterapia e esses agentes, ela aumenta para dois anos e meia a três anos de sobrevida. É um tratamento que consegue aumentar em seis vezes a sobrevida deles e o paciente continua com qualidade de vida. Eles continuam ativos”, pontua.
Fonte: Jornal Correio









