Curadoria sempre foi um ato de poder, não no sentido estético, mas estratégico: decidir o que merece atenção, o que permanece e o que fica deliberadamente de fora. Curar é organizar o mundo a partir de critérios. Na arte, na moda, na educação e no luxo, curadoria nunca foi apenas seleção; sempre foi produção de sentido. Às vésperas da NRF 2026, que propõe o tema “The Next Now”, esse princípio ocupa um lugar cada vez mais central no marketing e no varejo.
O debate relevante deixa de ser sobre novas ferramentas e passa a ser sobre o papel que as marcas assumem agora na organização do consumo. Curadoria aparece hoje como tendência, mas essa leitura é superficial. Curadoria sempre existiu. O que muda é sua centralidade estratégica. Para marcas e varejistas, curar passa a significar como se apresentar, como vender com coerência e como formar critérios de escolha em um ambiente de excesso. O próximo agora não está em comunicar mais. Está em assumir direção.
Curadoria como valor simbólico
Esse movimento acompanha uma transformação mais ampla no conceito de valor. O luxo deixou de ser abundância e passou a ser mediação qualificada: acesso a repertório, visão e experiências que ampliam a capacidade de leitura do mundo. O prestígio migrou do objeto para o contexto. Não por acaso, educação executiva, imersões estratégicas e encontros curatoriais ganharam relevância. Eles oferecem aquilo que se tornou raro: profundidade, contexto e formação de visão.
O valor deixa de estar na posse e passa a residir na capacidade de interpretar. Esse raciocínio atravessa o consumo e o varejo de forma cada vez mais evidente, não apenas no segmento premium. Quando quase tudo está disponível, vender sem formar se torna um modelo frágil. O diferencial passa a ser quem organiza, interpreta e dá sentido ao excesso.
Curadoria como decisão estratégica
Curadoria estratégica não é escolher menos por escolher. É escolher com intenção clara. É definir que tipo de experiência sustentar, que visão de mundo reforçar e quais caminhos conscientemente deixar de seguir. Segundo a Business Research Insights, o mercado global de “experiential marketing” deve crescer de cerca de US$ 53 bilhões em 2025 para mais de US$ 73 bilhões em 2035. O crescimento do investimento é evidente. O diferencial competitivo, porém, estará na qualidade da curadoria que organiza essas iniciativas.
O deslocamento do papel das marcas
Quando essa lógica chega ao marketing, a comunicação tradicional começa a perder eficácia. Nesse cenário, a experiência do consumidor deixa de ser ativação pontual e passa a operar como infraestrutura simbólica. É na experiência que a curadoria da marca se manifesta de forma concreta: na escolha dos temas, dos formatos, das narrativas e das vivências que decide sustentar e, de forma igualmente estratégica, daquelas que opta por não fazer.
Experiência deixa de ser espetáculo e passa a ser expressão de visão. Experiências que ampliam repertório, organizam entendimento e oferecem direção constroem vínculos duradouros. O que ensina permanece. O que apenas estimula se dissipa.
Quando o varejo assume o papel de curador
Alguns modelos de varejo já operam sob essa lógica. A Nordstrom Local elimina o estoque físico para priorizar serviço, conveniência e contexto. O espaço existe menos para vender produtos e mais para ajudar o consumidor a decidir melhor. A curadoria acontece na mediação, não na prateleira. A Muji traduz curadoria como filosofia de negócio. Menos SKU, menos estímulo, menos ruído. Cada escolha comunica uma visão clara de mundo.
O varejo deixa de ser um ambiente de excesso e passa a ser um espaço que organiza o cotidiano. Em ambos os casos, o ponto central não é inovação tecnológica, mas clareza estratégica. Não se trata de oferecer mais, mas de sustentar decisões coerentes ao longo do tempo.
O que tende a ganhar força na NRF 2026 e ao longo do ano
Sob o tema “The Next Now”, a NRF 2026 aponta para uma discussão que avança menos sobre novidade e mais sobre responsabilidade estratégica. Curadoria tende a aparecer não como discurso, mas como lógica estrutural: na construção de portfólios mais enxutos e coerentes; como critério para experiências que priorizam serviço, conteúdo e formação; como competência central das lideranças de marketing e varejo; e como alternativa clara ao modelo de oferta excessiva, que já demonstra sinais de esgotamento. O futuro imediato do varejo não parece estar em ampliar escolhas, mas em assumir o risco de escolher melhor.
O “próximo agora” do marketing e do varejo não está em falar mais, acelerar mais ou reagir a tudo. Está em assumir a curadoria como estratégia central de negócio. Em um mundo de acesso quase ilimitado, quem organiza o sentido, ocupa o lugar de autoridade. Marcas que entendem isso deixam de disputar atenção e passam a construir referência. Essa pode ser a decisão mais estratégica de 2026.
Raquel Monreal é CEO da Monreal Marketing.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo









