René Dentz*
Durante muito tempo, viver significou também esperar. Esperava-se que Deus providenciasse, que a família sustentasse, que o trabalho recompensasse, que o casamento permanecesse, que o Estado protegesse, que o conhecimento esclarecesse. Mesmo quando a vida fracassava, existia alguma instância acima de nós à qual era possível dirigir a pergunta: por quê? O sofrimento podia ser terrível, mas ainda parecia inscrito em alguma ordem.
A sociedade contemporânea rompeu profundamente com essa experiência. Não significa simplesmente que deixamos de acreditar em Deus. A transformação é mais ampla: perdemos a confiança em uma espécie de providência simbólica. Nada assegura que o esforço será recompensado, que o amor durará, que os filhos seguirão nossos valores, que uma formação garantirá trabalho ou que nossas escolhas produzirão felicidade. Nada responde por nós.
O psicanalista brasileiro Jorge Forbes utiliza uma expressão particularmente potente para descrever essa condição: somos habitantes de um mundo “desbussolado”.
Para ele, passamos de uma sociedade vertical, organizada por referências relativamente estáveis – o pai, a família, a profissão, a pátria, as instituições – para uma sociedade horizontal, múltipla, na qual os caminhos deixaram de estar previamente definidos. O sujeito contemporâneo encontra inúmeros futuros possíveis, mas nenhuma autoridade capaz de lhe dizer qual deles deve escolher.
Perdemos a bússola, mas não perdemos a necessidade de orientação. Aí que aparece um dos grandes paradoxos de nosso tempo. Quanto menos acreditamos em uma providência, mais procuramos pequenas providências particulares.
Multiplicam-se gurus, influenciadores, fórmulas de felicidade, métodos infalíveis, discursos de alta performance, promessas de enriquecimento, diagnósticos rápidos, previsões algorítmicas. Queremos que alguém nos diga o que comer, como dormir, como amar, quando terminar uma relação, como educar os filhos e qual caminho seguir. Forbes observa que, diante do desbussolamento e da responsabilidade de inventar o próprio caminho, existe uma forte tentação de retornar às respostas prontas.
As muletas se multiplicam porque o chão desapareceu. Até mesmo a tecnologia pode ocupar esse lugar. Perguntamos ao algoritmo o que assistir, o que comprar, por onde caminhar, com quem conversar. Aos poucos, podemos começar a desejar que ele também responda quem devemos ser. O perigo não está na tecnologia em si, mas na fantasia de finalmente encontrar alguma coisa capaz de nos poupar da responsabilidade pela própria existência.
Essa é uma das experiências mais duras da pós-modernidade: descobrir que liberdade e desamparo caminham próximos. Quando nenhuma grande narrativa garante antecipadamente o sentido de uma vida, cada escolha carrega uma responsabilidade maior. Diante de múltiplos futuros possíveis, não existe saber capaz de assegurar completamente uma ação; é preciso escolher, apostar e responder pelo escolhido.
Então, o que nos salva? Talvez a pergunta precise ser deslocada. Quem disse que alguma coisa virá nos salvar? Esperamos durante séculos uma providência que desse sentido ao caminho. Agora talvez sejamos convocados a construir sentido enquanto caminhamos. Isso não significa viver sem vínculos, sem fé, sem comunidade ou sem amor. Ao contrário. Significa que nenhuma dessas experiências deveria funcionar como uma prótese destinada a eliminar nossa responsabilidade.
O outro pode caminhar conosco, mas não pode existir em nosso lugar. Amar pode sustentar, mas não oferece garantias. A fé pode abrir horizontes, mas não elimina o risco. A psicanálise pode produzir novas perguntas, mas não entrega mapas prontos.
O mundo desbussolado exige menos uma nova bússola universal e mais a coragem de navegar sem garantia. Nada responde inteiramente por nós – e é justamente aí que começa nossa responsabilidade. No fim, não seremos salvos de nossa condição. Precisamos aprender algo mais difícil: habitá-la.
* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.
Fonte: Hoje em Dia









