Março Amarelo: mês de conscientização sobre a endometriose

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Por Márcia Mendonça Carneiro*

Março é o mês escolhido para falar sobre endometriose, doença benigna que afeta até 10% das mulheres em idade reprodutiva e se manifesta principalmente por dor pélvica e dificuldade para engravidar. A doença caracteriza-se pela presença do tecido que reveste o útero (endométrio) na pelve feminina e em outras localizações incluindo intestino e pulmões. Estudos revelam que a doença surge a partir da interação de múltiplos elementos, incluindo fatores genéticos, imunológicos, inflamatórios, hormonais e ambientais. Apesar de benigna, a doença compromete a qualidade de vida de mais de 7 milhões de brasileiras, causando dores muitas vezes intensas e infertilidade.

As mulheres com endometriose enfrentam uma longa e difícil jornada até obter o diagnóstico adequado e iniciar o tratamento, que é apenas sintomático, já que não há cura reconhecida para a doença. Infelizmente, muitas podem levar de cinco a 12 anos e passar por cinco ou mais médicos até obter o diagnóstico e/ou tratamento adequados.

Há três formas distintas de endometriose descritas: superficial, profunda e ovariana. A endometriose ovariana caracteriza-se pela presença de cistos de conteúdo achocolatado facilmente identificados à ultrassonografia. Em geral, o endometrioma ovariano é acompanhado de outras lesões de endometriose, principalmente a doença profunda no intestino. Apesar de ser uma das condições mais comuns entre mulheres com endometriose, afetando 17% a 40% dos casos, o endometrioma continua a levantar questões clínicas importantes devido ao efeito sobre a fertilidade futura. A presença do endometrioma por si só pode comprometer a fertilidade devido às alterações locais que provoca no ovário e sua remoção pode afetar significativamente o potencial reprodutivo.

Em vista dessas questões, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) reuniu especialistas membros da Comissão Nacional Especializada de Endometriose (CNE) para compilar as evidências científicas disponíveis para guiar a abordagem do endometrioma. O documento produzido (Febrasgo Position Statement: Treatment of ovarian endometriosis) foi publicado em fevereiro deste ano na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) e contou com a minha participação. 

A publicação visa trazer de forma direta e simplificada a melhor abordagem disponível para os endometriomas ovarianos. Entre os pontos abordados no documento chama atenção a necessidade de se discutir a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos em mulheres que serão submetidas à cirurgia para remoção do endometrioma, assim como a necessidade de abordagem multidisciplinar para a obtenção dos melhores resultados. Como a fertilidade feminina tem relação direta com a idade da mulher, o aconselhamento deve ser individualizado levando em conta os marcadores da reserva ovariana (quantidade de óvulos no ovário em um dado momento),  cirurgias prévias e história de infertilidade.

A endometriose pode provocar danos irreparáveis à saúde. É importante salientar ainda que a doença é crônica e a cura definitiva não ocorre. Dessa forma, educar e falar sobre endometriose é crucial, pois a doença pode impactar negativamente o curso de vida das mulheres, visto que o início dos sintomas geralmente ocorre na juventude, um período da vida quando várias decisões importantes precisam ser tomadas. O acesso ao diagnóstico e o tratamento precoce que leve em consideração características individuais e objetivos de vida de cada mulher podem aliviar os efeitos negativos da endometriose e permitir a estas mulheres a oportunidade de uma vida plena e digna.

* Ginecologista da Clínica Origen BH. Professora Titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Vice-presidente da Comissão Nacional Especializada de Endometriose (CNE) da Febrasgo

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”

Fonte: Hoje em Dia

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