A volta do tesouro

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Por Editorial de A TARDE

Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) – Foto: Amanda Oliveira | Divulgação

Os bons filhos a casa tornam, embora na hipótese de obras de arte, este provérbio encontrado no Evangelho de Lucas (15:11-32) possa ser entendido como figura de analogia. São boas filhas da criatividade as obras de artistas pretos na maior repatriação estética já promovida no país.

Desde o final do século passado, o acervo estava sob proteção de duas colecionadoras dos Estados Unidos. A artista plástica Bárbara Cervenka e a historiadora da arte Marion Jackson foram as guardiãs da produção mesclada de baianidades e africanismos.

Agora, todo este sidéreo de rastros, vestígios e sinais das multiculturas próprias do Brasil ficará preservado no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, o Muncab, em Salvador. Já estão na capital baiana desde 12 de janeiro as peças do admirável tesouro.

Todo o cuidado revela o profissionalismo e a consciência política de servidores responsáveis pelo patrimônio. O processo de traslado envolveu embalagem especializada e adequação aos protocolos de conservação acordados em tratados internacionais de museologia.

Cumpridos os trâmites de alfândega e realizado o transporte técnico especializado, tudo correu como só poderia acontecer, o êxito é absoluto. Um total de 135 artistas trabalhou para doar sentido às exatas 666 peças.

Citar alguns seria cometer injustiças, até porque não há espaço para tantos nomes. É possível afirmar, no entanto, a pluralidade de gerações, territórios e linguagens artísticas. São pinturas, esculturas, fotografias, gravuras de madeira, arte sacra, estampas e outras formas de expressão.

Uma grande nação, destinada às glórias e ao desenvolvimento, não tem como projetar-se ao futuro sem antes fazer o mesmo movimento ao tempo já extinto. As riquezas simbólicas tornam-se políticas, por meio de narrativas, técnicas e imaginários sequestrados ao povo preto.

Acrescente-se ao belíssimo tento lavrado pelo Ministério da Cultura, a satisfação de praticar justiça reparadora e proporcional contra o secular e abjeto racismo de classe ainda latente.

Fonte: A Tarde

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